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terça-feira, 18 de novembro de 2008

UM É POUCO, DOIS É BOM, MUITOS É UM FESTIVAL

E se de repente algum maluco resolvesse investir o dinheiro de uma herança para fazer um mega-show com todos os grandes astros de rock? Ou ainda unir todo mundo para tocar em prol dos famintos na Etiópia? Isso já aconteceu, e estes encontros entraram para a história pela grandiosidade dos eventos e pelas figuras que passaram por lá.



Os anos 60 foram marcados pela contracultura nos EUA. Hippies, protestos contra a guerra e contra o capitalismo, e a filosofia "paz e amor" invadiam a juventude. Nesta época, John Roberts, filho de grandes empresários do setor de cosméticos, não sabia o que fazer com a quantia de US$ 4 milhões que havia herdado. Junto com seu amigo Joel Rosenman, criaram a Woodstock Ventures Incorporated, para administrar o dinheiro e o que iriam fazer com ele, neste caso, um festival de música com três dias de duração, onde imperassem o folk, com seu pacifismo e sua contundente crítica social, o rock, com sua contestação ao conservadorismo dos valores tradicionais, o blues, com sua melancolia que havia décadas já mostrava as contradições da sociedade norte-americana.


Jimi Hendrix - Voodoo Child (Woodstock, 1969)

Dinheiro não era o problema maior – a questão era onde o show iria ser feito, já que ninguém queria envolver seu nome junto com um bando de hippies. Eis que a dupla de jovens empresários descobre a fazenda de Max Yasgur, um empresário da indústria laticínea, que aceitou ceder seu terreno em troca de um preço bem salgado para a época – US$ 125 mil. Fora isso, os organizadores pagavam o dobro do cachê da época para os artistas participarem do festival. Poucos rejeitaram a oferta, como The Doors e Led Zeppelin, que estavam envoltos em suas turnês e projetos pessoais.


Joe Cocker - With a Little help from my friends (Woodstock, 1969)


Então, entre os dias 15 e 17 de agosto de 1968, a pequena fazenda na cidade de Bethel, em Nova York, que estava preparada para receber 50 mil pessoas, foi a casa de mais de 400 mil fãs de música e pregadores da "era de Aquário". E só quem esteve lá pôde presenciar apresentações históricas de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joan Baez, The Who, Santana, Creedence, Grateful Dead, Joe Cocker, Jefferson Airplane, dentre outros. Woodstock foi um sucesso, considerado o auge da contracultura e um marco para o movimento hippie.


Santana - Soul Sacrifice (Woodstock, 1969)


Em 1985, foi a vez dos músicos Bob Geldof e Midge Ure reunirem grandes nomes da música, mas desta vez por uma causa humanitária. Geldof havia assistido uma matéria n a BBC sobre a fome na Etiópia, e decidiu não ficar de braços cruzados. A primeira idéia foi lançar um single para o Natal. Junto com Paul McCartney, Bono e The Edge (U2), Boy George e outros, gravaram a música "Do They Know I's Christmas?". O músico esperava juntar 70 mil libras, mas dizem que o lucro ficou na casa dos milhões.



A iniciativa estimulou outra movimentação conhecida do público nos EUA. Alguém aí se lembra de "We Are The World"?



Mas Geldof não estava satisfeito. Decidiu viajar pelo mundo e estimular seus contatos a fazer um projeto audacioso, o Live Aid – um show transmitido via satélite e realizado em lugares diferentes. Os concertos foram realizados em Londres (com uma platéia de aproximadamente 82 mil pessoas) e na Filadélfia (aproximadamente 99 mil pessoas). Alguns artistas apresentaram-se também em Sydney, Moscou e Japão.


Queen - We Will Rock You (Live Aid, 1985)


Foi uma das maiores transmissões em larga escala por satélite e de televisão de todos os tempos -- estima-se que 1,5 bilhão de espectadores, em mais de 100 países, tenham assistido a apresentação ao vivo, arrecadando mais de US$ 280 milhões. A data em que ocorreu, dia 13 de julho, foi instituída como o Dia Mundial do Rock.


Black Sabbath - Iron Man (Live Aid, 1985)


Rock'n'Roll. Há mais de 60 anos quebrando conceitos e ajudando pessoas.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O NASCIMENTO DO ROCK (parte 2)

Se você já leu a primeira parte desta história, sabe que o sul dos EUA teve uma grande explosão musical vinda dos negros através do blues, do jazz e do gospel. Porém, o rock ainda não passa de um embrião, e muita coisa ainda estava por acontecer.

Os músicos negros, por não serem conhecidos do grande público, precisavam começar de baixo antes de alcançar o sucesso. Seus principais palcos eram os honky tonks - pequenos bares frequentados pela classe operária, cujos principais atrativos eram a bebiba barata, a música e as mulheres. Eram ambientes onde muitas histórias circulavam, inspirando os músicos em suas composições.



A medida em que eram descobertos pelos donos de gravadoras, e passavam a gravar seus discos, descobriam um novo obstáculo: a discriminação racial. Músicas de negros só tocavam em rádios de negros. Nas emissoras mais abrangentes, o trabalho dos artistas era transmitido em horários de pouca audiência. Então você pergunta: "o que as rádios tocavam então no restante da programação?" Além de músicas clássicas, os ouvintes americanos apreciavam um som peculiar da costa oeste, tocado por caipiras brancos, conhecido como hillbilly, que mais tarde deu orígem ao country.



Os donos das gravadoras da época, reconhecendo o potencial da música negra, e as barreiras impostas pelo preconceito, deram um pequeno "jeitinho": contratavam artistas brancos para cantar as composições dos músicos negros. Bingo! Sucesso garantido!



Toda essa revolução musical no sul dos Estados Unidos acontecendo nos anos 40 e 50 serviu como preparação de um som mais pesado, com uma batida rápida e que misturava um pouco de cada um destes ritmos. Alan Freed, DJ que apresentava um programa de rádio à noite sob o apelido de "Moondog", batizou aquele novo som com uma expressão utilizada em algumas músicas da época, o rock'n'roll. Porém, ainda faltava um "algo a mais"...

Este "algo a mais" surgiu quando um motorista de caminhão de Memphis entrou na gravadora Sun Records para gravar um LP como presente para sua mãe. Pouco tempo depois, ele retorna para gravar o primeiro sucesso da sua carreira, That's All Right Mama. Era Elvis Presley, considerado por muitos como a encarnação viva do rock. Aquele foi o marco zero, abrindo espaço para todos que vieram depois dele.



Antes de Elvis, não havia nada. (John Lennon)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O NASCIMENTO DO ROCK (parte 1)

Um senhor de idade lá pelos 70 anos. Negro, de mãos calejadas pelo trabalho nas lavouras, com um forte sotaque caipira americano. Assíduo frequentador de bares e casas de espetáculos e frequentador esporádico da Igreja Batista. Seu nome é Rock'n'Roll, e é assim que ele seria nos dias de hoje se fosse uma pessoa de carne e osso. Pode até parecer loucura no início, mas se você voltar alguns anos na história, tudo ficará bem mais claro.

Os Estados Unidos, diferente do Brasil, tiveram dois modelos de colonização. Na região sul, o clima quente e a terra fértil propiciavam a cultura agropecuária. Já no norte, o ar seco e o solo rochoso favoreceram o desenvolvimento do comércio e da manufatura. A partir daí, a história é a mesma que conhecemos por aqui: escravos vindos da África se tornaram mão-de-obra barata nos grandes latifúndios, principalmente nos arredores do Rio Mississipi, que favorecia o cultivo de algodão.

Arrancados do seu continente, os negros viam-se forçados a trabalhar na lavoura de sol a sol, num ritmo desgastante. Para espantar a saudade da terra natal e fazer o tempo passar mais rápido enquanto estavam no campo, eles cantavam. Letras simples que falavam de coisas típicas do cotidiano, como amor, religião, sexo e trabalho. Algumas destas músicas também serviam como um código entre eles, para indicar estratégias e rotas de fuga, como o caso da espiritual Wade in the Water, que indicava aos escravos que a melhor rota de fuga seria pela água:


Ao fim da Guerra da Secessão (1861-1865), com a vitória dos estados do Norte, veio também o fim da escravidão. E apesar da constituição americana garantir o direito de igualdade entre os cidadãos, não foi bem isso que aconteceu. O racismo e a discriminação colocaram os negros à margem da sociedade. Este cenário fez com que as músicas do campo tomassem rumos diferentes. Um deles, carregado de tristeza e melancolia, angústia e sofrimento. Assim surgia o Blues.


Outro caminho foi o da fé, da esperança em tempos melhores, onde todas as graças são alcançadas porque Deus não deixa um filho seu na mão. A música invadiu as igrejas e contagiava não só pelas letras, mas pelo ritmo acelerado, que não deixava os cultos parados. Era a música Gospel.



Dizem as más línguas que lá pelos lados de New Orleans surgiu um outro gênero, baseado no improviso e no sentimento que o músico tem no momento que está tocando. Eis que surge o Jazz.


Na semana que vem contaremos para você como isso tudo deu origem ao rock. Fique ligado!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O DIA EM QUE O ROCK MORREU

Na mitologia grega, a Fênix era o nome dado a um pássaso considerado sagrado, que quando morria, entrava em auto-combustão e renascia das próprias cinzas. Com certeza você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o rock? Pois tal como a ave mitológica, o rock precisou morrer para renascer com toda a força e energia que conhecemos hoje.

Vamos voltar um pouco no tempo, mais exatamente para a década de 1950. Após a II Guerra Mundial, os EUA consolida-se como potência mundial, e colhe os louros de um crescimento econômico impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico e pelo boom do consumismo entre os jovens. Ao mesmo tempo, o pensamento da sociedade americana ainda era retrógrado e racista - as músicas dos negros só tocavam nas rádios em determinados horários, exatamente para que ninguém pudesse ouvir. Tudo isso mudou quando um jovem motorista de caminhão que atendia pela alcunha de Elvis Aaron Presley surgiu no cenário musical, iniciando uma revolução social nunca antes vista.

A música negra passou a ser regravada por artistas brancos, abrindo o espaço que seus criadores precisavam para alcançar o sucesso. Nesta época surgiram gênios como Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, Buddy Holly, Fats Domino, Johnny Cash, Carl Perkins, dentre outros. Nas letras, temas como festas, mulheres, e insinuações sexuais predominavam. Shows lotados de meninas histéricas e de jovens com os hormônios a flor da pele. Um prato cheio para os moralistas de plantão.

Não demorou para que associações de pais, membros da igreja, conservadores e políticos se manifestassem contra o rock, colocando nele a culpa dos jovens terem se tornado rebeldes sem causa. Muitos shows foram cancelados. Uma das histórias da época foi a de que Elvis havia sido proibido pelo prefeito de uma cidade de chacoalhar sua pélvis durante o show, caso contrário seria preso. Câmeras de vídeo foram instaladas para monitorar a apresentação do rei do rock. Não adiantou muito - mesmo mexendo apenas o dedo mínimo de uma mão, Elvis levou a platéia ao êxtase.

A preocupação com o avanço do rock'n'roll pela América atingiu o alto escalão governamental. Como a mudança de valores dos jovens poderia afetar as relações de poder entre as instituições, a solução encontrada foi a de "domesticar" os responsáveis pela "selvageria". E o primeiro deles foi exatamente o pioneiro, Elvis Presley. A convocação para servir o exército americano na Alemanha agradou inclusive seu empresário, o coronel Tom Parker, que via nisto uma oportunidade de melhorar a imagem de seu assessorado perante a opinião pública e, com isso ganhando mais fãs através da fama de "patriota" do roqueiro.

army picture 1

Se a pressão moral não foi suficiente para impor respeito, ações mais enérgicas deram conta disso. Chuck Berry foi preso por cruzar uma fronteira estadual com uma menor de idade. Jerry Lee Lewis viu sua carreira desmoronar quando a mídia trouxe à tona seu casamento com uma prima de 13 anos. Little Richard, um dos músicos mais controversos (era espalhafatoso, e suas músicas picantes demais para a época), acabou se convertendo ao Evangelho e virando pastor. Para completar a tragédia, o avião em que viajavam Richie Vallens, Buddy Holly e Big Bopper sofreu um acidente, matando os músicos. O dia do acidente, 3 de fevereiro de 1959, ficou conhecido como "o dia em que o rock morreu", imortalizado anos depois na música American Pie, de Don McLean:

E foi assim que a sociedade conservadora americana conseguiu matar o rock. O que eles não sabiam que, tal como a Fênix, o rock não morre jamais. As cinzas deste movimento musical fizeram novamente os acordes de guitarra ressoarem e meninas gritarem desesperadamente por seus ídolos, desta vez do outro lado do Atlântico, em uma pequena cidade chamada Liverpool. Mas esta é outra história...